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RH : As profissões do pré-sal

Só os investimentos já aprovados pela Petrobras até 2013 vão exigir a formação de 207 mil pessoas

Extrair petróleo a 7 mil metros de profundidade, a 300 quilômetros da costa, em condições geológicas que os especialistas ainda não mapearam completamente. Esse é, provavelmente, o desafio tecnológico de uma geração de brasileiros. A recompensa é tentadora. Nas estimativas mais otimistas, a camada pré-sal, faixa subterrânea de 800 quilômetros, pode guardar o equivalente a 100 bilhões de barris, o que tornaria o Brasil dono da sexta maior reserva de petróleo do mundo.

O País precisará de mão de obra em todos os níveis, de soldadores a engenheiros de formação sofisticada, passando por geólogos, especialistas em logística, saúde e ambiente. “O pré-sal é um projeto de desenvolvimento brasileiro, assim como a ida à Lua foi para os americanos. Não dá para mensurar a quantidade de emprego necessária”, diz o superintendente da Organização Nacional da Indústria do Petróleo, Caio Pimenta.

Só os investimentos aprovados pela Petrobrás até 2013, dos quais o pré-sal é um dos carros-chefes, vão exigir a qualificação de 207 mil pessoas em 185 categorias diferentes.

Para atender à demanda por pessoal qualificado, o governo federal criou o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (Prominp). Nos últimos três anos, 43 mil pessoas foram treinadas pelo programa. A maioria delas é de nível técnico e básico, mas quem vai comandar o processo de exploração do pré-sal são os profissionais de nível superior, dos quais depende a geração de conhecimento e tecnologia.

Cabe ao Centro de Pesquisas (Cenpes) da Petrobrás, que fica no câmpus da UFRJ na Ilha do Fundão, no Rio, a missão de desenvolver soluções tecnológicas. “O profissional que nos interessa tem um perfil inovador e viés para pesquisa”, explica Maria de Fátima Duarte Mattos, gerente de Recursos Humanos do Cenpes. O centro tem 2.110 funcionários. Destes, 1.274 são de nível superior: 506 têm mestrado e 215, doutorado.

Este mês, a Petrobrás e a Schlumberger, empresa franco-americana que desenvolve tecnologia para a indústria de petróleo e gás, assinaram acordo que prevê a criação pela multinacional, em 2010, de um centro de pesquisas ligadas ao pré-sal na Ilha do Fundão. A Schlumberger estima que serão abertas 300 vagas para brasileiros no projeto.

“As áreas de Geologia, Geofísica e Engenharia serão de extrema importância para o sucesso dos projetos do pré-sal”, diz a gerente de Planejamento de Recursos Humanos da Petrobrás, Mariângela Mundim. As duas primeiras são essenciais à exploração porque determinam onde pode haver petróleo e quais poços devem ser perfurados - o custo de cada perfuração chega a US$ 100 milhões.

Carreiras ligadas à Engenharia são fundamentais para toda a cadeia produtiva do petróleo. Uma das prioridades da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que tem seu próprio programa de formação de pessoal, é a Engenharia de Reservatórios. “São esses profissionais que, baseados nos estudos geofísicos, fazem cálculos para identificar se há óleo no reservatório, a capacidade e o tipo”, diz Florival Carvalho, superintendente de Pesquisa e Planejamento da ANP.

Carvalho comanda 36 programas que envolvem 23 universidades em 16 Estados. O projeto acaba de incorporar mais dois perfis profissionais. “Queremos incentivar a formação nas áreas de segurança operacional e saúde ocupacional”, diz o superintendente.

Outra área que tem merecido atenção da indústria é a de logística. “A capacidade dos estaleiros, as condições das embarcações e o transporte de pessoas já preocupam hoje, porque é um custo elevadíssimo levar trabalhadores às plataformas”, diz Heltom de Paulo, consultor de perfuração de poços da gigante de engenharia e serviços americana Halliburton, outra fornecedora da Petrobrás. Todos os meses, a estatal transporta 40 mil pessoas para suas plataformas. Não é só a demanda pelo serviço que vai crescer com o pré-sal. A distância, por exemplo, vai dobrar, já que hoje a empresa opera unidades a 150 km da costa, em média.

Há também um esforço gigantesco a ser feito em terra, como a construção de gasodutos para transportar o gás extraído com o petróleo. O setor petroquímico, de onde saem de gasolina a matérias-primas para todos os setores da indústria, está investindo pesado na ampliação de refinarias. Engenheiros químicos e civis são peças-chave na construção e operação das refinarias e no transporte desses produtos.

“A Petrobrás é a mãe, em última instância todo o setor trabalha para ela. Mas até um padeiro que esteja fornecendo para essa área vai se dar bem”, compara o empresário Gabriel Pinton, da WDT Engenharia, que presta serviços para a estatal na área de controle de qualidade. Quando comprou a WDT, há dois anos e meio, ele tinha um funcionário. Agora tem 200, entre eles advogados, profissionais de marketing e jornalistas.

Uma das maiores dificuldades hoje, segundo o presidente do Estaleiro Atlântico Sul, Angelo Bellelis, é contratar gente de nível superior em meio de carreira. Dos 148 profissionais com diploma universitário do estaleiro, que fica em Suape (PE), a maioria é sênior ou júnior. “Temos as duas pontas. Entre os mais experientes, muitos estavam afastados do mercado e não acompanharam a evolução da tecnologia e das normas de segurança ou ambientais.” COLABOROU BRUNA TIUSSU

Rochas e 3D - Edgard Poyate - Engenheiro

O que pode acontecer quando se perfura o sal? Isso é o que o engenheiro mecânico Edgard Poyate estuda no Cenpes, o Centro de Pesquisa da Petrobrás. Apesar de a descoberta de petróleo nas camadas pré-sal ser recente, o comportamento das rochas salinas é pesquisado há muito tempo. “Comecei na empresa em 2001 e nessa época já ocorriam não só estudos, mas também a aplicação deles.” A rocha salina exige um esforço maior da broca de perfuração e reage de modo diferente aos fluidos usados para facilitar o avanço do equipamento no solo. Por isso, o objetivo das pesquisas é calcular, a partir dos dados geomecânicos da rocha, qual o melhor meio de fazer a perfuração. Para esses cálculos, Poyate recorre à mecânica computacional. “Testando combinações numéricas prevemos o comportamento das rochas quando submetidas a determinadas condições.” A Petrobrás criou softwares que reproduzem na sala de realidade virtual do Cenpes o poço e a camada de pré-sal e simulam possíveis deformações da rocha. Tudo em 3D. “O que se vê na Disney, usamos como ferramenta de trabalho.”

Direito - Eduardo Guedes - Advogado

A possibilidade de trabalhar em diversos países foi um fator decisivo para Eduardo Guedes, de 25 anos, direcionar os estudos para a área do petróleo. Funcionário do departamento jurídico da M&S Brasil, concessionária da ANP, ele começou ontem o mestrado em Direito de Petróleo e Gás na Universidade de Aberdeen, Escócia. Seu objeto de pesquisa é o JOA, sigla de Joint Operating Agreement, documento usado nas muitas parcerias firmadas entre empresas do setor. “Nenhuma delas quer correr o risco sozinha, então dividem o bolo e compartilham infraestrutura e tecnologia.” O advogado é solicitado para intermediar acordos, fusões de empresas, contratos de parceria e regulamentações. “Nessas negociações, tudo é muito dinâmico. O advogado tem de estar presente o tempo todo.” Mesmo empresas com departamento jurídico contratam escritórios especializados no setor petrolífero. Profissionais com esse perfil ainda são raros no Brasil, porque há poucas especializações na área. Com a exploração do pré-sal, demanda não vai faltar. “O Brasil tem grande chance de ser um player mundial.”


Parcerias - Inacio Figueiredo - Gestor de contratos

A trajetória de Inacio Figueiredo, de 47, é reveladora dos altos e baixos da Engenharia no País. Ele fez duas graduações simultâneas no Mackenzie, em Engenharia Mecânica e Metalúrgica. Foi gerente de uma fabricante de balanças, depois montou sua própria indústria de máquinas fatiadoras de frios. O mercado ficou ruim e ele vendeu a empresa. Trabalhou numa fabricante de veículos blindados antes de chegar a uma indústria de equipamentos para plataformas de petróleo. Passou por várias companhias e é capaz de discorrer com detalhes sobre risers (colunas gigantescas que envolvem a sonda de perfuração) e sistemas de bombeamento de fluidos. “Muitas pessoas que estão nesse mercado vieram do eixo industrial, como eu. Falta gente porque a formação em profissões técnicas foi desestimulada no passado.” Inacio decidiu fazer um MBA em gestão e hoje trabalha como autônomo. Faz a supervisão de contratos firmados por prestadoras de serviços à Petrobrás. “O gerente de contratos faz o meio de campo entre várias empresas que se unem para atender às demanda das gigantes”, explica.

Reservatório - Priscila Ribeiro - Engenheira

Em 2006, quando estava no último ano do curso de Engenharia de Petróleo na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Priscila Ribeiro prestou o concurso da Petrobrás só como um teste de conhecimentos. Passou e no ano seguinte começou a trabalhar no Centro de Pesquisa da empresa, o Cenpes, desenvolvendo estudos de avaliação de formações, braço da Engenharia de Reservatórios. “Nossa função é tentar descobrir como é o reservatório hoje e como ele se comportará até o fim de sua vida útil. Criamos modelos matemáticos que nos ajudam a gerenciá-lo.” Esse processo tem vários atores. “Começa com o geofísico, que descobre o local, passa por quem perfura, depois por nós, que avaliamos os testes, e vai para o engenheiro no campo.” O Cenpes busca funcionários com formação acadêmica ampla. Por isso, Priscila ficou o ano passado trabalhando na unidade da Petrobrás em Macaé e fazendo mestrado na UENF. “Foi importante ter a experiência do campo, mas adoro a pesquisa. Sinto que tenho mais a contribuir.” No ano que vem, ela começará o doutorado.

Robótica - Flávio Neves - Pesquisador

Professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Flávio Neves começou este ano a desenvolver robôs para a indústria do petróleo. Usados na inspeção das chapas das plataformas, os robôs são capazes de identificar - e informar, em tempo real - rachaduras, bolhas ou trincas nas chapas. Também andam na vertical e monitoram cordões de solda. “A finalidade é segurança. Se não reparados, estes detalhes podem causar prejuízos enormes.” O robô precisa ter capacidade de navegação, localização e proteção das sondas. Cada uma dessas competências é gerenciada por um sensor diferente. O desafio é acoplar todos eles no robô. “O ideal é que ele seja leve e pequeno. A USP desenvolveu um de 20 quilos. Nós vamos fazer outro de 10, com todos as sondas acopladas.” Com o robô, o trabalho do engenheiro se limita a monitorá-lo por computador. Mas nem sempre foi assim. “Fiscalizar manualmente é bem desagradável. Num tanque de 10 metros de diâmetro a pessoa passaria o dia numa posição desconfortável, debaixo de sol. Dá para imaginar alguém fazendo isso num tanque de 100 metros?”

Software - Heltom de Paulo - Consultor

A expectativa de especialistas é de que, começando a exploração da camada pré-sal, Santos se torne um novo polo da indústria de óleo e gás. A Petrobrás planeja até construir uma sede na cidade. Apesar de o boom do pré-sal estar previsto para daqui a alguns anos, as consequências já são perceptíveis hoje. “Me mudei pra cá no ano passado e foi difícil encontrar um imóvel com custo-benefício satisfatório. O mercado imobiliário teve uma inflação provocada pelo efeito Petrobrás”, diz Heltom de Paulo, engenheiro da empresa americana Halliburton. Ele está pensando em morar em São Paulo e descer todo dia para o litoral. Consultor na área de perfuração de poços, Heltom trabalha diretamente no cliente, no caso a Petrobrás, auxiliando quem utiliza os softwares da Halliburton. Segundo ele, as empresas do setor já vivem uma corrida tecnológica frenética e a perfuração do pré-sal vai intensificar ainda mais a concorrência. “Neste mercado, cada um busca desenvolver ferramentas exclusivas, porque leva o contrato quem tem a melhor oferta. É uma briga acirrada por preço, serviço e a solução ideal.”


FONTE: Jornal da Tarde - SP

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