Petrobras negocia condições menos rígidas de fornecimento; indústria que precisar de gás 100% do tempo pagará mais. Com contratos 'inflexíveis' com setor privado, Petrobras diz que pode ter dificuldade de abastecer térmicas caso precisem de geração plena.
A Petrobras informou que já está negociando novos contratos de gás com as distribuidoras do país, mas o plano é impor condições menos rígidas de fornecimento para assegurar um mercado "flex" de gás. A estratégia da diretoria de Gás e Energia é não perder o atual poder de manobra na oferta do combustível no mercado interno, seja em relação ao gás boliviano (com as reduções de bombeamento para o Brasil), seja na oferta de gás baseado em contratos sem garantia de fornecimento 100% do tempo.
Maria das Graças Foster, diretora da Petrobras, diz que contratos que permitam interrupção de fornecimento serão mais baratos que os contratos chamados, no jargão do setor, de "firme inflexível". A estatal quer popularizar os chamados contratos do tipo "interruptí-vel" e "firme flexível". A indústria que precisar de gás 100% do tempo pagará mais por isso.
"O gás natural com a condição de ser interruptível pode ser 40% inferior ao valor nos contratos firme inflexível, com garantia de fornecimento todo o tempo. A tendência é que os contratos migrem para uma condição menos rígida", diz. A maior parte do gás vendido hoje no país tem esse regime.
A razão para isso está no setor elétrico. Toda a oferta de gás para as térmicas, ainda que estas não operem, é responsabilidade da Petrobras. Ao aceitar contratos "inflexíveis", a estatal poderá terá problemas para abastecer as térmicas em caso de geração plena.
"Hoje, tenho 30 milhões de metros cúbicos por dia de gás disponíveis para a geração térmica, ainda que as usinas não gerem nada. Isso equivale a uma potência instalada de 5,6 mil MW", diz Foster. Grande parte desse montante é garantida hoje pelo GNL (Gás Natural Liquefeito), com a oferta nos terminais de Pecém (CE) e da Baía de Guanabara (RJ).
A Petrobras afirma que a disponibilidade para térmicas terá de crescer. Em 2013, a Petrobras precisa assegurar oferta de 71 milhões de metros cúbicos por dia. Quando há chuva em excesso, como agora, há sobra de gás e, nesse caso, a estatal faz os leilões de oferta.
Nos nove leilões feitos até agora, foram disponibilizados 25 milhões de metros cúbicos para negociação com as distribuidoras. Esse gás, ao contrário dos contratados, está sendo negociado a valores próximos a US$ 5,80 por milhão de BTU.
A indústria afirma que o governo usa essa "falsa dicotomia" entre o gás para indústria e o gás para térmicas a fim de justificar a atual situação. "O governo precisa assegurar o fornecimento de energia elétrica e de gás. Aindústria não aceita ficar a reboque dessa falsa dicotomia", diz Ricardo Lima, presidente da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres).
FONTE: Folha de S. Paulo