Estatal estuda crescer na área de etanol por meio de uma parceria com o grupo Odebrechet também na área de bioenergia
O anúncio da fusão dos ativos da ETH Bioenergia com a Companhia Brasileira de Energia Renovável (Brenco), anunciada nesta quinta-feira (18/02), prenuncia a consolidação do setor sucroalcooleiro esperada para este ano. Segundo apurou EXAME, a Petrobras estaria interessada em deter uma participação na ETH-Brenco, uma empresa avaliada em 7 bilhões de reais. Desde o ano passado, executivos da estatal brasileira e do grupo Odebrecht têm discutido a melhor maneira de viabilizar essa parceria, que pode fortalecer a posição da ETH-Brenco de líder mundial em produção de energia renovável.
A participação da Petrobras, na fusão não seria apenas essencial para explorar o potencial da produção de etanol no Brasil, mas também para sanar o déficit no caixa da nova companhia. A ETH-Brenco nasce com uma relação dívida líquida/EBITDA (geração de caixa operacional) próximo de 30 vezes. Em geral, o mercado acredita que a proporção saudável seria de até 3 vezes o Ebitda.
Esse débito exorbitante é consequência de dois fatores: a Brenco não é uma empresa operacional - ou seja, não é geradora de caixa - e os seus investimentos em usinas, subsidiados por capital estrangeiro e por empréstimos do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), não foram suficientes para que a empresa escapasse ilesa do período de crise de crédito no setor.
Debilitada financeiramente, a Brenco foi engolida pela ETH numa fusão em que a Odebrechet será sócia majoritária com quase 65% das ações. Nesse caso, o aporte de capital da Petrobras. no negócio seria oportuno para a Odebrechet reduzir o valor da dívida da companhia recém-nascida e, assim, tentar cumprir a sua meta de se tornar a maior produtora de etanol do mundo até 2012.
Sabendo que o segmento de energia renovável tem passado por um processo intenso de internacionalização, a Petrobras quer garantir a sua parcela de participação no mercado doméstico para frear a expansão de investimentos estrangeiros no etanol brasileiro. Desde o ano passado, a americana Bunge incorporou o Grupo Moema, a francesa Louis Dreyfus adquiriu a Santelisa Vale e a anglo-holandesa Shell propôs a criação de uma joint venture com a Cosan.
Para a Petrobras, estar bem posicionada nesse setor é uma forma de conter o avanço estrangeiro no mercado local e também de se preparar para o possível crescimento do mercado global de etanol. Por isso, a ETH-Brenco acabou se tornando uma peça estratégica.
O surgimento de uma nova companhia produtora de bioenergia veio num momento importante para a estatal, que pretende ampliar a sua carteira de operações em etanol. Desde o ano passado, já está aprovado um orçamento de quase 5 bilhões de reais de investimentos no ramo de produção de energia renovável. O objetivo declarado da Petrobras. é dominar 30% da produção nacional de biocombustível, para evitar problemas como os que têm ocorrido com o desabastecimento devido à quebra da safra de cana-de-açúcar provocada pelo excesso de chuva.
A primeira investida da petrolífera no segmento foi no fim do ano passado, com a compra de 40,4% das ações da usina mineira Total Agroindústria Canavieira por 150 milhões de reais. Segundo fontes ligadas ao governo, há mais cinco projetos de fusão no setor sucroalcooleiro sendo avaliados pela Petrobras.
Mas o fator determinante da participação da estatal na ETH-Brenco é o vínculo antigo estabelecido com a Odebrechet. Embora a Petrobras não confirme a informação, é provável que seja replicado o mesmo modelo de negócio utilizado na aquisição da petrolífera Quattor no começo deste ano. Nessa transação, a Petrobrás ficou com 49% das ações da Quattor, enquanto a Braskem, do grupo Odebrechet, abocanhou 51% da fatia total do bolo.
Dessa mesma forma, a estatal brasileira pretende articular a sua participação ativa na ETH-Brenco, mas sem se tornar sócia majoritária. Se seguir a mesma lógica da Braskem-Quattor, em que durante meses ouviram-se especulações de "agora essa operação sai", o mercado deverá se preparar para mais um longa-metragem com muita ação apenas no final.
Fonte: Portal Exame